190
INFNCIA DE PAPEL E TINTA
Para Eclea Bosi
marisa lajolo


Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infncia querida
Que os anos no trazem mais! i .


Pi no sofre ? sofre ii


Enquanto objeto de estudo, a infncia  sempre um outro em relao
quele que a nomeia e a estuda. As palavras infante, infncia & demais cognatos,
em sua origem latina e nas lnguas da derivadas, recobrem um campo semntico
estreitamente ligado  idia de ausncia de fala . Esta noo de infncia como
qualidade ou estado do infante , isto , daquele que no fala , constri-se a partir
dos prefixos e radicais lingusticos que compem a palavra : in = prefixo que indica
negao; fante = particpio presente do verbo latino fari , que significa falar, dizer .


No se estranha, portanto, que esse silncio que se infiltra na noo de
infncia continue marcando-a quando ela se transforma em matria de estudo ou de
legislao.


Assim, por no falar, a infncia no se fala e, no se falando , no
ocupa a primeira pessoa nos discursos que dela se ocupam. E, por no ocupar esta
primeira pessoa , isto , por no dizer eu , por jamais assumir o lugar se sujeito do
discurso, e, conseqentemente, por consistir sempre um ele/ ela nos discursos alheios,
a infncia  sempre definida de fora .


Esta reificao da infncia , no entanto, cristalizada desde a origem
das falas que dela se ocupam , no  privilgio exclusivo dela, infncia. Junto com
crianas, mulheres, negros, ndios e alguns outros segmentos da humanidade foram ou
190#
191
continuam sendo outros eles & outras elas no discurso que os define. At que
esperneiam, acham a voz e, na fora do grito mudam de posio no discurso que, ao
falar deles e delas, acaba constituindo-os e constituindo-as. De objeto passam a
sujeito, ou, melhor dizendo, passam a sujeito e objeto simultaneamente, que as
posies se alternam no engendramento do discurso.


Assinalar, no entanto, a alienao a que esta desencontrada posio
discursiva confina a infncia, ao constru-la e defini-la, no diminui a fora das
categorias e definies pelas quais se fala da infncia, quando a questo, como aqui,
no  nem ontologia nem epistemologia da infncia : infncia -como feminino ou
como negritude -no so substncias ou seres de existncia autnoma como o cido
ribonucleico, ou os pares de patas das aranhas egpcias: negritude, feminino e infncia
so categorias que s vigem no espao social em que so estabelecidas, negociadas,
desestabilizadas e reconstrudas.


Ou seja: muito embora os seres humanos tenham sempre nascido
frgeis, pequeninos e leves e -quando sobrevivem...-tenham sempre ganho altura e
peso ao longo de muitos anos at que ficam fortes e seu tamanho se estabiliza, e quer
seja sua idade contada por anos, por luas, ou por chuvas, o significado de ser um ser
humano deste ou daquele tamanho, com muita ou com pouca altura , varia
enormemente de um lugar para outro, de um tempo para outro.


Alguns registros mais antigos, quando comparados a outros
contemporneos, ensinam que infantes e infncia foram diferentemente concebidos e,
conseqentemente, tratados de maneira diferente em distintos momentos e lugares da
histria humana.


Talvez nem se precise pesquisar exaustivamente em diferentes reas
para reparar na diferena. O Vocabolario della lingua italiana , por exemplo, define
infanzia como periodo della vita che va dalla nascita ai dodici anni iii , enquanto o
Webster iv define infancy como early childhood , ao passo que um dicionrio latim-portugus
estabelece limites etrios precisos no verbete infans, antis, ao dizer que
aos sete anos  que se considerava terminado o perodo em que a criana era incapaz
de falar v .


A constante necessidade de recorte e afinao, de busca de preciso
cada vez maior do conceito infncia  que justifica o esforo ( de resto intil, a
longo prazo ...) de mestre Aurlio vi , de navegar rente  psicologia em seu verbete
relativo  infncia :


Perodo de vida que vai do nascimento  adolescncia, extremamente
dinmico e rico, no qual o crescimento se faz, concomitantemente, em
191#
192
todos os domnios, e que, segundo os caracteres anatmicos,
fisiolgicos e psquicos, se divide em trs estgios: primeira infncia, de
zero a trs anos; segunda infncia, de trs a sete anos; e terceira
infncia, de sete anos at a puberdade (p. 763)


Mas enquanto a oscilao conceitual ensina que a vida muda, a
durao do esforo conceitual ensina que a vida continua, no obstante conceitos to
diferentes sejam formulados e vigorem em nome dos mesmos primeiros tempos da cria
humana, infncia chamada...


.... que, por isso mesmo, percebe-se, no  a mesma coisa, aqui e l,
ontem e hoje, sendo tantas infncias quantas forem idias, prticas e discursos que em
torno dela e sobre ela se organizem.


No mundo mais prximo de ns, algumas reas de conhecimento, mais
do que outras, ocupam-se da infncia: dentre estas, talvez a psicologia, a biologia, a
psicanlise e a pedagogia sejam as que, com mais assiduidade e disposio proponham
respostas para a complexa questo que indaga o que  a infncia ?


Foi, alis, atravs de diferentes formulaes destas disciplinas que
comearam a circular diferentes concepes de infncia : primeiro, vendo a criana
como um adulto em miniatura; depois, concebendo-a como um ser essencialmente
diferentes do adulto, depois ... Fomos acreditando sucessivamente que a criana  a
tabula rasa onde se pode inscrever qualquer coisa, ou que seu modo de ser adulto 
pre-determinado pela sua carga gentica, ou ainda que as crianas do sexo feminino j
nascem carentes do pnis que no tm, ou ento tudo isso , ou nada disso, ou ento
ou ento ou ento .


Se o conjunto de idias e crenas sobre a infncia , quando lido em
seqncia soa como uma divertida ciranda de contradies,  admirvel observar que ,
no obstante a contradio, todas estas crenas ( conhecimentos ? ) subsistiram. Por
qu ? Talvez porque funcionaram, isto , porque construram, para a infncia de que
falavam, uma representao adequada tanto aos pressupostos da disciplina no bojo da
qual tal conhecimento ( crena ? ) foi formulado, quanto adequada s expectativas que,
face  infncia , alimentava a comunidade onde se produziram e pela qual circula( va) m
os saberes em causa.


Dentre as vozes responsveis pela imagem de infncia em circulao em
sociedades do feitio da nossa, destacam-se as artes. Dentre estas, a literatura.
192#
193
Sem nenhuma pretenso ao rigor de que pretendem revestir-se vrias
das disciplinas que se ocupam da infncia, a literatura trabalha em surdina.. Enquanto
formadora de imagens, a literatura mergulha no imaginrio coletivo e simultaneamente
o fecunda , construindo e desconstruindo perfis de crianas que parecem combinar bem
com as imagens de infncia formuladas e postas em circulao a partir de outras
esferas, sejam estas cientficas, polticas, econmicas ou artsticas. Em conjunto, artes
e cincias vo favorecendo que a infncia seja o que dizem que ela  ... e,
simultaneamente, vo se tornando o campo a partir do qual se negociam novos
conceitos e novos modos de ser da infncia .


Dizendo de outra forma: a criana que habita romances e poemas 
parente muito prxima da criana que, em out doors vende sabonetes ou planos de
sade, da outra criana que  objeto de recomendaes da UNESCO e tambm
daquela outra que inspira pedagogias e puericulturas.


So todas -como deve ser, ao se tratar de crianas-uma grande famlia
.... e , pois, como quem percorre um lbum de famlia, que vamos percorrer alguns dos
retratos da infncia que a literatura vem construindo. Viagem no tempo , viagem nos
textos. A bordo de diferentes momentos da literatura brasileira.


J vai longe o tempo em que se podia acreditar numa imagem idlica
de infncia . Evocada numa perspectiva otimista e saudosa, o incio da vida humana
costumava traduzir-se em imagens ingnuas, naturais e positivas.


A poesia -sobretudo a romntica-teve peso grande na construo
desta imagem da infncia como vida sem conflitos, que espelha sua beatitude no
mar um lago sereno e no cu um manto azulado. A representao dos primeiros anos
de vida humana neste compasso serfico e ingnuo pode ter como emplema os versos
de Meus oito anos de Casimiro de Abreu -de onde se transcreveu a primeira epgrafe:
Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida ...


Esta representao ednica da infncia parece ter calado to fundo no
imaginrio brasileiro [ em funo, talvez, da freqncia com que compareceu a
antologias e manuais escolares ] que se transformou em clich, conjunto empoeirado
de metforas, que acorre  boca de quem quer que se prepare para falar da infncia.


Calou to fundo , que parece ter desbotado outras infncias, tambm
representadas na tradio literria brasileira. Como, por exemplo, a que se registra na
segunda epgrafe, ttulo de um pungente conto de Mrio de Andrade: Pi no sofre ?
sofre ....
193#
194
Vrias vertentes da literatura brasileira surpreendem pela presena
significativa de crianas ao longo de suas pginas, quase sempre em scripts que
invertem radicalmente a representao idlica da infncia casimiriana, substituindo a
viso ingnua e idealizada, por imagens amargas e duras.


A histria desencantada da infncia de papel e tinta pode ter como
marco inaugural a carta que Pero Vaz de Caminha, escrivo da frota de Cabral,
enviou ao rei portugus D. Manuel em 1500 . Texto de fundao de nossa
literatura, espcie de certido de nascimento & de batismo do Brasil, a infncia que se
faz presente nas maltraadas ,  observada com o mesmo estranhamento curioso com
que os descobridores olharam e viram os cus e as rvores do Novo Mundo.


Diz Caminha, no belo e instvel portugus quinhentista:


(...) tambem andava hy outra molher moa com huu menjno ou menina
no colo atado com pano n sey de que aos peitos . que lhe n parecia se
n as pernjnhas. mas as pernas da may e o al n trazia nhuu pano. (...).
(p. 49) vii


 uma imagem fragmentada de criana, metonimicamente entrevista
como s pernas a que comparece ao texto, meio como que de passagem, quase que
apenas para realar, por oposio aos panos que a recobrem , a nudez da me. Surge,
assim, encoberta e incompreendida, a primeira personagem infantil de nossa histria,
protagonizando o registro inaugural do que poderia um dia vir a ser a histria da
infncia brasileira.


Contada, como se anunciava l atrs, por um Outro: um Outro adulto e,
no caso, no americano


Esta alteridade, no entanto, no impediu que a atitude do narrador
Caminha inaugurasse uma perspectiva que se prolonga e se consolida em
representaes posteriores da infncia: a perspectiva adulta, a viso embaraada por
panos, o apagamento da sexualidade infantil persistem por muito tempo, ao passo que,
com o tempo, e para tranqilidade ( ou desapontamento ?) de muitos narradores,
colonizadores e colonizados, as mes das ditas crianas (pelo menos algumas) se
vestiram convenientemente...


Trs sculos e meio depois, mais uma criana ndia invade outro texto
da literatura brasileira , igualmente antolgico . Trata-se agora do romance Iracema
(Jos de Alencar 1865) viii cuja cena de abertura se constri mencionando de forma
vaga e sugestiva uma criana que o leitor, como o Caminha da Carta, entrev ao
longe. Narra Alencar:
194#
195
Trs entes respiram sobre o frgil lenho que vai singrando
veloce, mar em fora.
Um jovem guerreiro cuja tez branca no cora o sangue
americano; uma criana e um rafeiro que viram a luz no bero das
florestas, e brincam irmos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
(p. 11-12)


Os pargrafos acima, embora extrados do incio do livro, contam , na
realidade, o fim da histria: morta Iracema, o portugus Martim com quem ela gerou
Moacir vai para Portugal, levando o filho. O texto transcrito se organiza em funo
do suspense com que a cena pretende envolver o leitor: enfatizando a fragilidade do
barco , Alencar sugere os riscos corridos pelos seus navegantes. Sem nome que os
individualize, os trs irmanam-se por serem do sexo masculino, mas compem uma
comunidade de coeso instvel, cujos membros ora se aproximam, ora se afastam um
do outro: a pele branca do jovem guerreiro que aponta para etnia ariana afasta-o
do bero das florestas e da terra selvagem , elementos que, por sua vez,
aproximam criana e animal, vizinhana que patrocina uma viso
naturalizada/ animalizada da infncia ix .


O texto de Alencar ancora a histria que conta numa organizao
temporal bastante sofisticada, que desfia para seus leitores a sucesso de aes que
terminam na cena acima transcrita.  o prprio narrador que funde a imagem da
criana mestia que o pai europeu leva para Portugal na imagem da criana no rumo
do exlio:


O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das
praias do Cear, levando no frgil barco o filho e o co fiel. A jandaia
no quis deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora.
O primeiro cearense, ainda no bero, emigrava da terra da
ptria. Havia a a predestinao de uma raa ? (p. 86)


A fidelidade de Alencar ao ambiente americano expressa-se , por
exemplo, na marcao da passagem do tempo pela sucesso de estaes do ano ( O
cajueiro floresceu quatro vezes depois que...) , recurso que se harmoniza bem com o
tom de oralidade de um texto cheio de coordenaes, de frases curtas, de oraes
independentes e de reiteraes.  nessa linha , por exemplo, que a permanncia da
jandaia, ao lado de Iracema, em oposio  partida de Martim, de Moacir e do co
reitera o papel da oposio masculino/ feminino na estrutura do romance: se  verdade
que na palavra iracema pode-se ler o anagrama de Amrica , a fixao de uma
Iracema morta em companhia da fiel jandaia no solo do Novo Mundo, Amrica
chamado,  absolutamente significativo.
195#
196
Desdobrando e verticalizando leituras, o sabor amargo da interrogao
com que o narrador chama a ateno do leitor para o eventual significado da viagem
anunciada , insinuando que ela  premonitria de exlio de uma raa , encontra
respaldo na histria pessoal de Alencar: menino ainda, ele saiu de seu Cear natal com
a famlia, que por razes polticas migrava para o Rio de Janeiro. Mas ultrapassando
este significado pessoal, a cena tambm pode articular-se, em leituras mais
contemporneas, com a continuada migrao nordestina em busca de vida melhor
nas cidades do Sul. Num terceiro nvel, tambm repercute na idia de exlio, sugerida
pelo narrador alencariano, o s vezes ( mas s s vezes ?) ainda mais doloroso exlio
vivido pelos menores que, legal ou ilegalmente tirados do Brasil realizam, em outras
terras, os anseios de maternidade e paternidade de outros homens e mulheres que,
como o portugus Martim do romance, partem levando crianas brasileiras .


A fragilidade da infncia foi e continua sendo artifcio retrico
poderoso em nossa cultura. Com a lgrima que arranca dos olhos do leitor , o
sentimentalismo que a imagem da infncia , particularmente da infncia desvalida,
provoca, costuma patrocinar a adeso de coraes sensveis a idias e causas
variadas: s vezes, at, a causas altas e nobres e lcidas . Como , alis, fez o autor de
Iracema , ao reforar o recado de seu livro, simultaneamente nostlgico e nacionalista,
com a incluso, na histria, da fragilidade de uma criana rf e migrante.


Esta utilizao da imagem da infncia como reforo a teses que
interessam ao mundo adulto,  antiga na literatura ocidental, da qual um exemplo da
literatura francesa talvez seja bastante eloqente.


Nos anos setenta do sculo passado, uma Frana militarmente
derrotada pela Alemanha precisava de todo o capital que pudesse reunir para recuperar
o territrio perdido. Precisava, ao lado disso, tambm em regime de urgncia, de
outros tipos de capital -alis, de todos que pudesse amealhar-para, refazendo a
imagem arranhada pela derrota, resgatar o orgulho nacional.


A obra  qual a tarefa  confiada  um livrinho que percorre, com
velocidade e agrado geral, as escolas francesas: Le tour de la France par deux garons
, lanada em 1877 por G. Bruno x .Com o subttulo Dever e Ptria o livro  a
histria de dois irmos rfos que abandonando uma Alscia-Lorena ocupada,
percorrem a Frana em busca dos remanescentes da famlia. A superposio de
valores ptria e famlia  bem sucedida e rende dividendos narrativos e ideolgicos: a
perda de uma coincide com a perda da outra e , por efeito de simetria, a reconquista da
outra traz de troco aquela uma perdida.


Estes meninos franceses, no entanto, no esto sozinhos na tarefa de
redescobrir ou reformatar sua Ptria. Seguiram-nos em 1910 dois meninos brasileiros,
196#
197
Carlos e Alfredo , a cujas peripcies em busca do pai tido por morto , narradas no livro
Atravs do Brasil a pena de Olavo Bilac e Manuel Bonfim confiou a tarefa de difundir
a idia de um Brasil grande e unido xi .


Cumprindo o priplo que uma grande viagem representa, Carlos e
Alfredo concretizam geograficamente o ttulo do livro , Atravs do Brasil, j que o
percurso que os leva de Recife a uma estncia gacha  sinuoso, passando pela
(ento longnqua) Amaznia , o que garante representatividade total e diversificada do
territrio, que o livro transforma em nao.


Vemos, assim, que na segunda metade do sculo passado,
personagens infantis do uma boa mo a diferentes projetos nacionais, inclusive para
alguns estados de uma Europa que, como a de agora, passa a limpo seu mapa.


Na Itlia de 1886, o dirio de um menino , que relata episdios vividos
por crianas de escola,  instrumento importante para uma Itlia que unifica, nos
coraes e nas mentes fisgados pela leitura do livro, o estado e o territrio nacionais
que Garibaldi unificava no campo de batalha e na poltica . Tratava-se do livro Cuore
de De Amicis, alis pronta e competentemente traduzido no Brasil por Joo Ribeiro,
em 1891 xii .


Talvez seja nesta clave do envolvimento e solidariedade que to
profundamente atraem que se devam ler os mais contemporneos e igualmente bem
sucedidos best-sellers de Anne Frank xiii e de Zlata xiv , respectivamente registros da
Europa sob o taco nazista e da Bsnia sob o taco srvio. Taces que, no obstante,
pisarem forte, parecem saudveis para a indstria editorial que, no caso do dirio de
Zlata, se faz sobretudo presente na prpria tessitura do dirio, cuja publicao  uma
das preocupaes da menina, leitora de Anne Frank .


Tem-se , neste caso , um dirio que perde os traos de clandestinidade
que tanto comove no texto de Anne Frank, mas que ganha os traos da eficincia com
que a ps modernidade produz, divulga e premia testemunhos, para os quais extino
de etnias, pobreza, guerra e similares desgraas , so apenas um entre vrios
componentes envolvidos nas histrias que os livros contam.


E que, contando, contabilizam.
Voltando no entanto, ao sculo passado do Cuore de De Amicis, sua
popularidade  tal, que, em sua poca, mais do que o francs Le tour de la France,  a
histria italiana que se torna uma espcie de modelo da literatura infantil e, enquanto
modelo, matriz de uma relao estreita entre literatura infantil e diferentes projetos
nacionais . , pelo menos, nesta direo que aponta o comentrio que em 1916
Monteiro Lobato, que se preparava para fundar a literatura infantil brasileira moderna,
197#
198
faz para Godofredo Rangel, relativamente  inadequao entre o livro italiano e o
pblico brasileiro:


(...)  de tal pobreza e to besta a nossa literatura infantil , que nada
acho para a iniciao de meus filhos. Mais tarde s poderei dar-lhes o
Corao de Amicis -um livro tendente a formar italianinhos ( p. 104-
105) xv


Estas crianas missionrias, personagens infantis que carregam nos
ombros a misso de fundar ou de salvar suas respectivas Ptrias , geralmente
protagonizam histrias de final feliz: os meninos franceses refazem a vida,
transformam-se em pequenos proprietrios e casam-se; o ano escolar italiano se
encerra com as crianas perdendo seus preconceitos e convertidas  causa da
unificao italiana ; os rfos brasileiros se desorfanizam no re-encontro do pai, e at
Zlata , graas  presso internacional, deixa Saravejo com os pais em dezembro de
1993.


J Anne Frank, que morreu num campo de concentrao na Alemanha,
nos primeiros meses de 1945 sugere que nem sempre a vida imita a arte no que esta
tem de happy end ...


Sem happy end, e voltando  literatura e ao Brasil, a obra de Monteiro
Lobato pode ser um bom exemplo verde-amarelo de suporte infantil a propostas
sociais.


No polo da positividade, as histrias do pica-pau amarelo parecem
fazer do stio de Dona Benta um modelo social para o Brasil posterior a 30, o que de
certa forma d  obra infantil lobatiana papel de relevo no projeto de formao,
reconstruo ou modernizao do pas em que se empenha o escritor. Fica, por isso
sugestivo observar como a presena de crianas em obras no infantis do mesmo
Lobato, muda de registro e traz para o texto lobatiano uma tecla amarga de
desesperana, j assinalada a propsito do texto de Alencar.


 o que acontece, por exemplo, em inmeros de seus contos que,
desinteressando-se do pblico infantil, voltam-se para os maiores de idade, que os
lem ou na Revista do Brasil ou nos livros que Lobato lana atravs de sua prpria
editora nos arredores dos anos vinte deste sculo.  nesta direo que se torna
sugestiva a leitura de seu conto Negrinha , publicado em 1920 no livro homnimo. xvi
Ali, a protagonista  apresentada por um narrador que parece estar em dilogo
constante com seus leitores, antecipando-lhes expectativas, alimentando-as,
satisfazendo ou no a elas.


Ele apresenta Negrinha em traos rpidos:
198#
199
Negrinha era uma pobre rf de sete anos. Preta ? No; fusca,
mulatinha escura, de cabelos ruos e olhos assustados. (p. 03)


Esta personagem lobatiana repete o padro de orfandade j assinalado
em protagonistas de obras europias que podem ser consideradas como tendo
inaugurado a modernidade poltica da literatura infantil ocidental. O abrasileiramento
da personagem fica por conta da meno  etnia da personagem que, embora d nome
ao conto e ao livro, no tem nome prprio, referida pelo narrador ao longo de toda a
histria, sempre como negrinha , diminutivo que guarda, no contexto das relaes
inter tnicas da sociedade brasileira, vrias e conflituosas conotaes , da afetividade
ao menosprezo.


Na mesma direo, a identidade de Negrinha  construda pela
enumerao dos atributos que ela no tem :  interrogao preta ? que a
inscreveria num grupo social e tnico muito definido, segue-se negativa que a priva de
uma identidade negra integral, marcando-a com as meias tintas da mestiagem: fusca e
mulatinha escura so traos que a inscrevem numa identificao  deriva, que se
prolongam e se acentuam no ruo do cabelo e s se dissipam, retornando a um grau
zero, na meno aos olhos, sempre assustados.


Esta caracterizao da personagem pelas suas carncias, isto , pelo
que ela no tem , estende-se por inmeras outras passagens da histria:


Assim cresceu Negrinha -magra, atrofiada, com os olhos
eternamente assustados. rf aos quatro anos, por ali ficou feito gato
sem dono, levada a pontaps. No compreendia a idia dos grandes.
Batiam-lhe sempre, por ao ou omisso. A mesma coisa, o mesmo ato,
a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a
andar, mas quase no andava. com pretexto de que s soltas reinaria no
quintal, estragando as plantas (...) (p. 4)


No pargrafo acima, a apresentao de Negrinha pelo que ela no tem
j se prefigura no adjetivo atrofiada : a personagem que na apresentao inicial no
chegava a ser negra aqui se define pela sua proximidade com o mundo animal. Mas
tambm este -no que fornece de padres para a identificao de Negrinha-inscreve-se,
por sua vez, num padro de carncia, j que o gato ao qual se assemelha a menina 
sem dono . Ajudando a reforar esta mesma matriz, o texto menciona ainda duas
outras carncias da protagonista: Negrinha no compreendia e quase no andava.


Ou seja, neste conto de Lobato prossegue a vinculao j insinuada
pelo texto de Alencar, entre mundo infantil e mundo animal . Crianas mestias,
com sangue indgena ou africano, nestas duas representaes separadas por um
199#
200
intervalo de mais de meio sculo , sofrem igualmente o inevitvel rebaixamento a que
a sociedade brasileira confina mestios, negros e ndios, menorizados quer na prtica
da vida em sociedade, quer como se v na representao que desta vida em sociedade
faz a literatura.


No caso desta annima e triste personagem lobatiana , a uma
caracterizao que frisa suas carncias, e que refora a animalizao sugerida, soma-se
ainda o registro da violncia de que ela  vtima, violncia que, ao explodir em cena
aberta, devassa as razes dos olhos assustados to insistentemente mencionados :


O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, verges.
Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou no houvesse
motivo. Sua pobre carne exercia para cascudos, cocres e belisces a
mesma atrao que o m exerce para o ao. (p. 05)


O impacto da fragilidade espancada desta menina fisga fundo e talvez
garanta a solidariedade do leitor. O n na garganta no se desfaz, nem mesmo quando
a caracterizao da protagonista envereda por outros caminhos. Entre estes, destaca-se
o episdio no qual um cuco de relgio fascina e arrebata a imaginao de
Negrinha. A magia sonora da engrenagem que penetra seu casulo de sofrimento
suspende momentaneamente a dor e o susto, mas no suspende o n na garganta do
leitor que, s por estar lendo, j est a cavaleiro da situao da menina que  lida :


Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E
o tempo corria. E o relgio batia uma, duas, trs, quatro, cinco horas -um
cuco to engraadinho ! Era seu divertimento v-lo abrir a janela e
cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se
ento por dentro, feliz um instante.


O episdio do cuco encaminha o desenlace da histria, j que  na
superposio de nveis de existncia, quando imaginao e realidade se embaralham
que se representa a morte de Negrinha:


Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como gato sem
dono. Jamais, entretanto, ningum morreu com maior beleza. O delrio
rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos ... E
bonecas e anjos redemoinhavam-lhe em torno, numa farndola do cu.
Sentia-se agarrada por aquelas mosinhas de loua -abraada,
rodopiada.
Veio a tontura; uma nvoa envolveu tudo. E tudo regirou em
seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe. e
pela ltima vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.
200#
201
Mas, imvel, sem ruflar as asas.
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...
E tudo se esvaiu em trevas. (p. 11)


No delrio de morte, cucos e bonecas so senhas do ingresso de
Negrinha no mundo da imaginao: circundam-na e coexistem com a esteirinha rota
e com a evocao continuada do mundo animal como termo de comparao para a
protagonista que morre como um gato sem dono . Da mesma forma que a
comparao reitera o efeito de rebaixamento da figura de Negrinha que o texto inculca
ao longo de toda a histria, cucos e bonecas se alam e alam a protagonista pela
sua vizinhana com os anjos.


Esta aliana construda entre bonecas e anjos no se celebra, no
entanto, apenas em nome do reino do imaginrio ldico que os aproxima.


No imaginrio de um pas catlico como o Brasil, no qual a religio
catlica por um bom tempo legitimava a dominao , por exemplo, de brancos sobre
ndios e sobre negros e de adultos sobre crianas, anjos tm considervel peso
ideolgico, consolidade e difundido pelas inmeras litografias, santinhos e pinturas de
igreja que se aproximam , com bastante fidelidade, da cena do delrio final da menina.


Da mesma maneira, crescem os significados do contraste das cores
branco e preto que se acentua ao final do texto: a a sugesto das trevas que recobrem
a cena, apagando e desmaiando o vermelho da goela do cuco so uma poderosa
representao da morte que encerra o conto e cuja expresso retoma, na plasticidade
requintada do episdio, os smbolos mais radicais da questo racial brasileira.


Nos arredores da publicao deste conto de Lobato, um poema de
Manuel Bandeira esboa um outro retrato de criana que guarda inmeros pontos de
contacto com os textos j comentados, reforando a tese de uma consistente e
constante representao negativa da infncia no refolho das pginas da literatura
brasileira .


No poema de Bandeira, Meninos carvoeiros , datado de Petrpolis,
1921 e publicado em Ritmo dissoluto xvii ao lado da misria, pobreza, e abandono j
constituintes do conto Negrinha de Lobato, surge o trabalho infantil.


Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
-Eh, carvoero !
E vo tocando os animais com um relho enorme.


Os burros so magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvo de lenha.
201#
202
A aniagem  toda remendada.
Os carves caem.


( Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um
gemido)


-Eh carvoero !
S mesmo estas crianas raquticas
Vo bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingnua parece feita para eles ...
Pequenina, ingnua misria !
Adorveis carvoeirinhos que trabalhais como se
brincsseis !


-Eh, carvoero !
Quando voltam, vm mordendo num po encarvoado,
Encarapitados nas alimrias,
Apostando corrida,
Danando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos
desamparados ! (p. 92)


O poema de Bandeira destaca-se dos textos at aqui analisados por
tecer-se a partir da representao do trabalho infantil:  s nos ltimos versos que o
peso das imagens de trabalho dilui-se nas metforas do brinquedo. Mas no se dilui
por uito tempo: encarapitados, apostando corrida, danando e bamboleando
apenas intensificam, pela suspenso temporria que patrocinam do mundo da misria, a
reificao representada pela comparao final enunciada exclamativamente por um
Poeta que j rompeu ha tempo com o distanciamento isento dos primeiros versos:
espantalhos desamparados !


A este texto quase linearmente descritivo, cuja nitidez de perfis e de
cores lembra um pouco pintura primitiva, no falta a agora j antiga aproximao
entre o mundo animal e o mundo infantil, aqui mediada pelo trabalho : meninos e
burricos se espelham mutuamente: crianas raquticas e burros magrinhos refazem
na concretude do detalhe fsico, a aliana que, desde Jos de Alencar , passando por
Monteiro Lobato, parece estabelecer-se entre o mundo das crianas e o mundo dos
bichos.
A paisagem infantil desenhada por este Bandeira se sonoriza no prego
ou na toada de conduzir os animais ( eh carvoero ! ) e multiplica e diversifica suas
figuras humanas pela presena de uma velhinha . Mas se uma velhinha  elemento
novo nesta nossa antologia , no  nova a aproximao da infncia e velhice: esta
202#
203
aliana de extremos tem vida longa na tradio da cultura infantil, manifestando-se,
por exemplo, nas incontveis figuras de ancis contadeiras de histrias cuja linhagem,
inaugurada pela mre l'oye de Perrault ( 1697) , cruza sculos e fronteiras e chega at
as mes pretas do nordeste brasileiro, como os vultos que o mesmo Bandeira evoca
em tantos poemas e auto-biografias.


Esta velhinha que recolhe os carves cados , num certo sentido, ainda
mais marginal do que os meninos carvoeiros e os burricos: o sinal de parntesis que a
segrega entre as estrofes  uma sugestiva rplica textual do confinamento que a
velhice sofre em sociedades de recorte ocidental, j que no participa das foras
produtivas, mesmo as marginalizadas, como a de carvoeiros no Brasil dos anos vinte
deste sculo.


Velhinhas e crianas so seres  margem da produo, como tambm
marginais so os tempos respectivos de cada um deles: a madrugada ingnua dos
meninos e a boca da noite da velhinha constituem um tempo intermedirio entre o
dia e a noite , tempo improdutivo, como, tambm, intermedirio,  o espao em que se
movem os figurantes do poema, a caminho da cidade , esta, sim, lugar por excelncia
da produo e que, talvez por isso, no tenham lugar para velhos e para crianas.


Dessa forma, crianas, burricos e velhinha transitam num texto cheio de
sinais de violncia e de degradao: se na magreza e na velhice os burros se identificam
com as crianas e com a velha, o relho que os toca e a cangalha que os prende traz
para a cena, espelhada, a violncia fsica e o jugo que, na histria de Lobato, se abatia
sobre Negrinha: com Bandeira, a violncia comea j na meno ao trabalho de
menores. A aniagem esburacada dos sacos e o po encarvoado so os outros ndices
do desacerto material deste mundo, desacerto que, linguisticamente, bem pode estar
cifrado na segunda pessoa do plural que, explode no vocativo que registra, exatamente
no inslito do pronome vs de que se vale, a impossibilidade da transposio
pretendida do mundo adorvel da infncia para um nada adorvel mundo do
trabalho.


Reificados finalmente na imagem de espantalhos desamparados, estes
meninos carvoeiros de Manuel Bandeira constituem uma ponte interessante para, da
literatura, passarmos a uma obra de testemunho que, como se pode antecipar ,
mergulha o leitor num quadro agora j famliar de infncia sofrida e desamparada .


Em pauta um trecho autobiogrfico da escritora Carolina Maria de
Jesus, recentemente publicado. Trata-se de Minha vida , transcrito no belo livro A
Cinderela negra de Jos Carlos Sebe Bom-Meihy e Robert Levine xviii . Aqui a
radicalidade agramatical do testemunho tanto refora idias sugeridas pelos contos,
203#
204
poemas e romances, como contribui com elementos novos para o lbum que registra
instantneos da infncia brasileira.


Carolina conta:


Eu estava com sete anos e acompanhava a minha me por todos
os lados. Eu tinha um medo de ficar sozinha. Como se estivesse alguma
coisa escondida neste mundo para assustar-me. Eu ainda mamava.
Quando senti vontade de mamar comecei a chorar.
Eu quero irme embora !
Eu quero mamar !
Eu quero irme embora !"
A minha saudosa professora D. Lanita Salvina perguntou-me:
"Ento a senhora ainda mama ? "
"Eu gosto de mamar"
As alunas sorriram.
"Ento a senhora no tem vergonha de mamar ? "
"No tenho !"
As senhorita est ficando mocinha e tem que aprender a ler e
escrever, e no vai ter tempo disponvel para mamar, porque necessita
preparar as lies. Eu gosto de ser obedecida ! Estais ouvindo-me D.
Carolina Maria de Jesus ? "
Fiquei furiosa, e respondi com insolncia.
"O meu nome  Bitita. No quero que troque o meu nome. "
"O teu nome  Carolina Maria de Jesus. '
Era a primeira vez que eu ouvia pronunciar o meu nome.
Que tristeza que senti. Eu no quero este nome, vou troc-lo
por outro.
A professora deu-me umas reguadas nas pernas, parei de chorar.
Quando cheguei na minha casa tive nojo de mamar na minha me.
Compreendi que eu ainda mamava porque era ignorante, ingnua e a
escola esclareceu-me um pouco.
Minha me sorria dizendo:
"Graas a Deus ! Eu lutei para desmamar esta cadela e no
consegui. A minha me foi beneficiada no meu primeiro dia de aula.
Minha tia Oluandimira dizia:
" porque voce  boba e deixa esta negrinha te dominar " (173-
174)


Textos testemunhais cartografam terrrenos desencantados que parecem
impor as imagens que tecem sem a delicada ficcionalidade na qual se entretecem os
textos literrios. Como diria Ea de Queirs, nudez crua da realidade, sem o manto
difano da fantasia .


Nudez crua que devassa traos famliares na constituio do retrato,
mais uma vez em branco e preto. As formas de tratamento senhora e senhorita so
irnicas e articuladas a uma mais do que inadequada segunda pessoa do plural, e mais
204#
205
o enunciado do nome civil completo da protagonista so contraparte simblica -porque
no reino da linguagem-das reguadas na perna que estancam o choro aparente:
choro aparente, porque o interno  melodia que acompanha o doloroso , ainda que
tardio, processo de desmame.


Aqui, de novo, se impe a questo: a vida real imita a arte ?
Voltamos a esta e a seu difano manto manto de fantasia nos
compassos sincopados de um poema bem contemporneo.  a cano "Pivete" de
Francis Hime e Chico Buarque de Holanda


Monsieur have money pra mangiare
No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pel
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E at
Dobra a Carioca, Oler
Desce a frei Caneca, Olar
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
No meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, Oler
Prancha parafina, Olar
Dorme gente fina
Acorda pinel


Zanza na sargeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Man
Arrombar uma porta
Faz ligao direta
Engata uma primeira
E at
Dobra a Carioca, Oler
Desce a frei Caneca, Olar
Se manda pra Tijuca
Na contramo
205#
206
Dana paralama
J era parachoque
Agora ele se chama Ayrton
Sobe no passeio, Oler
Pega no recreio, Olar
No se liga em freio
Nem direo


No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sargeta
E tem as pernas tortas


A partir da epgrafe poliglota, a infncia que o texto representa habita
o mundo globalizado da ps modernidade, onde menores pedem esmola em diferentes
lnguas, e o onde o ttulo j inscreve a imagem de infncia que tece numa cidade
grande, cheia de esquinas e entupida de trnsito. A paisagem carioca, marcada
decisivamente na geografia urbana de ruas, morros e bairros do Rio de Janeiro abre
espao para a representao urbana do menor de rua.


Como os meninos carvoeiros de Bandeira entre o campo e a cidade,
entre a claridade da manh e o escuro da noite, este pivete, talvez exatamente por ser
um pivete, tambm habita espaos intermedirios, emblemticos de uma sociedade que
no tem lugar para ele: nas franjas da vida , nos cruzamentos, do lado de fora dos
automveis, cujos motoristas so ora seus fregueses, ora suas vtimas ele  o retrato de
uma infncia completa e literalmente desterritorializada .


Irmo mais novo da menina mulata do conto de Lobato, como ela este
pivete carioca tambm tem seu imaginrio: no h mais lugar para os velhos relgios-cuco
e bonecas loiras de loua que iluminavam a imaginao de Negrinha, que se
incendiava em objetos singulares e domsticos, posto que ao acesso de poucos: a
frao de Brasil que , nos anos vinte , tinha acesso ao consumo de importados, como
relgios-cuco e bonecas de loua. J os mitos deste pivete de agora j so os mitos do
mesmo mundo que, no poliglotismo da epgrafe fala diferentes lnguas.


Da infrao pequena ao comrcio clandestino, o pivete de agora 
acompanhado na perigosa ginga das esquinas, por vultos de dolos com os quais
compra seu sonho. Os diferentes sonhos sonhados, materializam sua historicidade
global na meno a Pel, Ayrton (Senna) e Man (Garrincha), sem dvida emblemas
de um Brasil inacessvel, exceto sob a efmera forma do sonho e do desejo, a
206#
207
pivetes como os do poema. Sonhado no intervalo entre um furto e uma venda, entre
um arrombamento e uma pegada de onda, e intensificado nos efeitos da boca de fumo
e do papelote, a transio do sonho para a realidade  via de mo dupla que o poema
constri com esmero.


A repetio de palavras, o deslocamento de versos, a constante
referncia a movimento e a velocidade duplicam-se na narrativa de compassos geis e
curtos. E o efeito de conjunto se potencializa mais uma vez, emblematizando a
mobilidade deste menino cuja histria, narrada na brevidade do texto, ao embaralhar
sonho e realidade, mito e fato, acaba embaralhando tambm vida e morte de um pivete
que, se se mata no carro que rouba e no sabe dirigir, multiplica-se em outros pivetes
que, em outras janelas de outros carros continuam, com a flanela ou a berreta, a luta
longa pela sobrevivncia difcil , j antecipada no exlio do filho de Iracema na morte
de Negrinha, na misria dos meninos carvoeiros ...


Ou seja, a viagem pela literatura, atravs do tempo e a bordos de textos
ensina que a epgrafe de Mrio de Andrade, virando do avesso a de Casimiro, est
dolorosamente certa para o Brasil: aqui, pi sofre, e sofre muito ...
207#
208
Bibliografia:
ABREU, Casemiro de. "Meus oito anos". apud Antonio Candido e J. Aderaldo
Castelo Presena da literatura brasileira. (II-Do Romantismo ao Simbolismo). Rio
de Janeiro/ So Paulo, DIFEL, 1978, 7 ed. p. 41.
Almanaque Abril CD-ROM
ANDRADE, Mario de. "Pi no sofre? sofre." In: Os contos de Belazarte. So Paulo.
Liv. Martins Editora / Brasilia INL. 1972, 5 ed. p. 105-126.
ARIS, Philipe. Histria social da criana e da famlia. Rio de Janeiro. Ed.
Guanabara, 2 ed. 1981.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro. Jos Olympio Ed. 1966.
CASTRO, Silvio. A carta de Pero Vaz de Caminha (o descobrimento do Brasil).
Porto Alegre, LP& M, 2 ed. 1985.
Dicionrio Escolar Latino-Portugus. Braslia. MEC, 3 ed. 1962.
ALENCAR, Jos. Iracema. So Paulo, tica, 13 ed. 1982.
LAJOLO, Marisa. Usos e abusos da literatura da escola. Rio de Janeiro, Globo,
1982.
________ e Zilbermam, R. Literatura infantil brasileira: histria e histrias. So
Paulo, tica, 1991.
MONTEIRO LOBATO, J. B. Negrinha. So Paulo. Brasiliense. 7 ed. 1956.
________ A barca de Gleyre. So Paulo, Brasiliense , 2 v. 1956.
O dirio de Anne Frank (ed. por Oto H. Frank e Mirjam Pressler) Ed. integral, Rio de
Janeiro, Record, 1996, 2 ed.
Webster's seventh new collegiate Dictionary. Springfield (Mass) C. Meriam CO. 1970.
ZINGARELLI, Nicola. Il nuovo Zingarelli. (vocabolario della lingua italiana),
Bologna: Zanicheli. 11 ed.
ZLATA, Ilipovic. O dirio de Zlata. (A vida de uma menina na guerra). 7 ed. So
Paulo, Cia. das Letras.
208#
RODAPS

i Abreu, Casimiro de ." Meus oito anos" apud Antonio Cndido e J. Aderaldo
Castelo Presena da literatura brasileira ( II-Do Romantismo ao Simbolismo) 7 edio. R. J./ S. P: DIFEL. 1978 p. 41.


ii Andrade, Mrio de. "Pi no sofre ? sofre" in Os contos de Belazarte 5 ed. S. P. Livr. Martins
Editora-Braslia: INL . 1972 p. 105-126


iii Zingarelli, Nicola. Il nuovo Zingarelli ( Vocabolario della lingua italiana); Bologna: Zanicheli .
11 ed. p. 934.


iv Webster's seventh new collegiate Dictionary, Springfield (Mass) C. Meriam Co. 1970, p. 431


v Dicionrio Escolar Latino-Portugus. Braslia. MEC. 3 ed. 1962 p. 494
vi A u r  l i o . Novo Dicinrio . Rio de Janeiro. Ed. Nova Fronteira. 1. ed ( 5. reipresso. s/ d
258#
259
259
vii verso moderna do texto: (...) Tambm andava por l uma outra mulher,
ela tambm nova, com um menino ou uma menina atada com um pano -no sei e de que-aos peitos, de modo que lhe apareciam somente as perninhas.


Mas nas pernas da me, e no resto de seu corpo , no havia pano algum. (p. 86) Castro, Silvio. A carta de Pero Vaz de Caminha ( O descobrimento
do Brasil) [ introduo, atualizao e notas de Slvio castro. Porto Alegre. LP& M. 2 ed. 1985
viii Jos de Alencar. Iracema. So Paulo: Ed. tica (srie Bom livro) 13
ed. 1982. Todas as citaes provm desta edio, indicando-se o nmero da pgina, entre parntesis, ao fim da transcrio.


ix Esta viso ainda hoje parece ter livre curso em certos discursos, por exemplo, no discurso que
explica por esta difusa a n i m a l i d a d e residual e latente o fato de crianas apreciarem
h i s t  r i a s d e b i c h o s .


x G. Bruno  pseudnimo de Augustine Tuillerie.


xi Conferir comparao entre a obra francesa e a brasileira em Lajolo, M. Usos e abusos da
literatura na escola Rio de Janeiro: Globo. 1982 .


xii Relativamente a influncia desta literatura infantil europia fin-du-sicle na literatura
infantil brasileira cf. Lajolo, M e Zilberman, R. Literatura infantil brasileira, histria e
histrias. So Paulo: tica 1991


xiii O dirio de Anne Frank (ed. por Otto H. Frank e Mirjam Pressler) Edio integral. Rio de Janeiro:
Record. 1996. 2 ed.


xiv Z l a t a , F i l i p o v i c . O dirio de Zlata ( A vida de uma menina na guerra) 7 reimpresso. So Paulo:
Companhia das Letras. 1991.


xv Monteiro Lobato, J. B. A barca de Gleyre. I I vol. So Paulo : Editora Brasiliense. 7 edio 1956

xvi Monteiro Lobato, J. B. Negrinha So Paulo : Editora Brasiliense. 7
edio 1956 Todas as citaes provm desta edio, indicando-se o nmero da pgina, entre parntesis, ao fim da transcrio . Cilza Carla Bignoto,
aluna especial do curso de Letras da UNICAMP e bolsista de apoio tcnico ao projeto Memria de Leitura desenvolveu, em trabalho de fim de curso,
interessante paralelo entre Negrinha e Narizinho Arrebitado.

xvii Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro. Livr. Jos
Olympio Ed. 1966

xviii apud Cinderela Negra (A saga de Carolina Maria de Jesus) [ Jos Carlos
Sebe Bom-Meihy e Robert Levine. RJ. Editora da UFRJ. 1994] p. 173-174. relativamente ao texto de onde foi extrado o excerto , explicam os autores"
(...)  um texto original de Carolina Maria de Jesus. Uma verso posterior,
intitulada Um Brasil para os brasileiros" foi publicada na Frana, e depois
integrou a verso do Dirio de Bitita. (p. 171).
